Hugo Mol tem mestrado em Economia e mais 20 anos de experiência em gestão de investimentos e riscos.
O diretor de Investimentos da Prevcom, Hugo Mol, traça o panorama de como os mercados se comportaram em março de 2026.
O primeiro trimestre de 2026 foi caracterizado por um momento de inflexão no ciclo macroeconômico, após o período de desaceleração observado ao longo de 2025. O ambiente econômico passou a reunir sinais iniciais de estabilização da atividade doméstica, inflação ainda acima do centro da meta, porém com trajetória mais favorável, e o início do processo de flexibilização da política monetária, conduzido de forma cautelosa pelo Banco Central.
No cenário internacional, a economia dos Estados Unidos apresentou crescimento moderado, compatível com a manutenção de condições monetárias restritivas por um período prolongado. Na Europa, o desempenho permaneceu contido, com avanços pontuais em setores específicos. A China, por sua vez, seguiu enfrentando desafios estruturais, caracterizados por crescimento abaixo da média histórica e pressões deflacionárias persistentes. Esse conjunto de fatores resultou em um ambiente externo marcado por elevada volatilidade, com alternância entre momentos de maior apetite ao risco e episódios de aversão nos mercados globais.
No âmbito doméstico, a atividade econômica apresentou sinais de estabilização, com melhora marginal em indicadores de consumo e serviços, sustentados pela resiliência do mercado de trabalho e pela expansão da renda real. Em contrapartida, setores mais sensíveis às condições financeiras, como indústria e construção, continuaram refletindo os efeitos acumulados do prolongado ciclo de juros elevados. Para 2026, a projeção central de crescimento segue moderada, situando-se entre 1,5% e 2,0%, condicionada à evolução do ambiente fiscal, da política monetária e da confiança dos agentes econômicos.
A inflação iniciou o ano em patamar ainda elevado, próxima ao limite superior do intervalo de tolerância da meta. Apesar disso, indicadores prospectivos apontaram arrefecimento gradual das pressões inflacionárias, criando espaço para que o Banco Central promovesse, em março, o primeiro corte da taxa Selic, reduzindo-a de 15,00% para 14,75% ao ano. A comunicação da autoridade monetária reforçou uma postura prudente, sinalizando que os próximos passos dependerão da consolidação da desinflação, da evolução cambial e do comportamento das expectativas inflacionárias.
No mercado financeiro, o trimestre foi marcado por volatilidade significativa. No exterior, a reavaliação das perspectivas para os juros nos Estados Unidos impactou especialmente os ativos de tecnologia, enquanto na Europa os setores financeiro e industrial apresentaram desempenho relativo superior.
Entre os mercados emergentes, observou-se comportamento heterogêneo, com destaque pontual para ativos asiáticos ligados à cadeia de tecnologia. No mercado cambial, o dólar apresentou movimentos erráticos, refletindo tanto mudanças no diferencial de juros quanto episódios de aversão global ao risco.
Performance das carteiras de investimentos
A carteira consolidada da Prevcom apresentou rentabilidade de 1,01% em março, ficando abaixo da meta de referência de 1,27% (IPCA + 4,5% a.a.). No acumulado de 2026, contudo, a rentabilidade atingiu 3,24%, superando o objetivo do período, que totalizou 3,01%, equivalente a 107% da meta.
O desempenho ao longo do trimestre evidencia a eficácia da estratégia de alocação adotada pela Fundação com a diversificação entre as classes de ativos.
O ambiente de juros elevados beneficiou os investimentos da Fundação. No fechamento do trimestre 45,80% do patrimônio sob gestão encontrava-se alocado em ativos indexados ao DI e 41,80% em ativos atrelados à inflação, contribuindo para o desempenho superior à meta de referência (IPCA + 4,5% a.a.).
Perspectivas para os investimentos
A combinação de início gradual do ciclo de queda dos juros, inflação ainda em processo de convergência e um cenário internacional volátil reforça, para 2026, a necessidade de uma postura seletiva, disciplinada e prudente na alocação dos recursos.
No crédito privado, a manutenção de spreads comprimidos exige rigor adicional na análise de risco, com foco prioritário em emissores de alta qualidade, estruturas conservadoras e adequada liquidez. À medida que o processo de afrouxamento monetário avance, oportunidades táticas podem surgir, especialmente em ativos indexados à inflação.
Na renda fixa, a estratégia permanece voltada à captura de retornos reais atrativos, preservando flexibilidade para ajustes graduais de duration conforme a evolução do ciclo monetário. O ambiente de juros ainda elevados, combinado com a perspectiva de redução gradual da Selic, tende a favorecer ativos prefixados e instrumentos indexados ao IPCA, desde que acompanhados por maior previsibilidade fiscal.
Na renda variável, após o processo de ajuste observado no início de 2026, a expectativa é de maior dispersão de resultados entre setores e empresas. O foco permanece direcionado para companhias com fundamentos sólidos, governança consistente, elevada geração de caixa e menor sensibilidade ao ciclo econômico doméstico.
A Diretoria de Investimentos da Prevcom seguirá adotando uma postura de cautela, responsabilidade e disciplina na gestão dos recursos, priorizando a preservação do capital, a adequada gestão dos riscos e a busca por retornos consistentes no longo prazo. A diversificação internacional continuará desempenhando papel relevante na mitigação de riscos e ampliação do leque de oportunidades, especialmente em um ambiente global ainda marcado por incertezas e volatilidade recorrente.












